Durante meses, quem olhava para as ações do Banco do Brasil podia encontrar um argumento aparentemente irresistível: BBAS3 estava barata.
Banco gigante, marca conhecida, presença nacional, forte exposição ao agronegócio, distribuição de proventos e múltiplos que, à primeira vista, pareciam muito inferiores aos de vários concorrentes.
Parecia aquela típica oportunidade que o investidor não deveria deixar passar.
Só que existe um problema.
A ação já subiu bastante desde as mínimas, e alguns dos problemas que derrubaram o papel ainda não desapareceram.
Em 2 de setembro de 2026, o Money Times informou que BBAS3 havia recuperado mais de 20% desde as mínimas próximas aos níveis vistos em 2023, em um movimento impulsionado também pelo chamado “trade eleitoral”. Mesmo assim, a XP manteve recomendação Neutra e estabeleceu preço-alvo de R$ 21.
Na página de acompanhamento do próprio Banco do Brasil consultada em setembro, BBAS3 aparecia em R$ 22,80, com P/L de 5,20 vezes e P/VPA de 0,68 vez.
Então fica a pergunta que muita gente não quer fazer:
se BBAS3 é uma pechincha tão óbvia, por que uma grande casa de análise ainda recomenda cautela?
O PROBLEMA DE OLHAR APENAS PARA O PREÇO
Um erro muito comum na Bolsa é confundir uma ação que caiu muito com uma ação que ficou barata.
São coisas completamente diferentes.
Imagine uma empresa que valia R$ 30 e caiu para R$ 20. É tentador dizer que ela está “33% mais barata”.
Mas isso não significa que os R$ 20 sejam uma oportunidade.
Pode significar que o mercado passou a acreditar que os lucros futuros serão menores, que o risco aumentou ou que a empresa precisará de mais capital para atravessar um período complicado.
No caso do Banco do Brasil, essa discussão ficou especialmente importante porque a deterioração da qualidade do crédito virou um dos principais problemas da companhia.
A análise mais recente da XP descreve justamente essa situação: existe uma perspectiva de recuperação no agronegócio, mas a carteira de pessoa física apresentou deterioração relevante, especialmente em cartões de crédito e produtos relacionados ao consignado.
Em outras palavras:
uma parte da história está melhorando enquanto outra ainda está piorando.
E isso torna a tese muito menos simples do que o famoso “BBAS3 está barato”.
O AGRONEGÓCIO PODE SALVAR O BANCO?
Existe, sim, uma esperança concreta para o Banco do Brasil.
E ela está justamente em um dos segmentos mais importantes da instituição: o agronegócio.
A XP avalia que a Medida Provisória 1.376 pode ajudar produtores endividados por meio de renegociações envolvendo entrada, alongamento de prazo e garantias adicionais.
A expectativa é que isso melhore gradualmente a qualidade dos ativos agrícolas e reduza o custo de risco do banco. A análise também cita sinais de recuperação dos preços da soja e um câmbio mais depreciado como fatores potencialmente favoráveis aos produtores.
O detalhe que merece atenção é o prazo.
A melhora não acontece instantaneamente.
Segundo a XP, o terceiro trimestre de 2026 ainda pode sofrer os efeitos de pagamentos adiados e renegociações, com uma aceleração esperada na utilização da nova estrutura ao longo do quarto trimestre. A casa projeta efeitos mais positivos em 2027 e 2028.
Isso significa que quem está comprando BBAS3 hoje, na prática, pode estar apostando em uma recuperação futura.
E é justamente aqui que mora o risco.
ENQUANTO O AGRO MELHORA, O CONSUMIDOR APERTA O BANCO
A parte mais incômoda da história talvez seja esta.
Quando se fala em Banco do Brasil, muita gente automaticamente pensa em agronegócio.
Mas o banco também possui uma enorme exposição ao consumidor brasileiro.
E, de acordo com a XP, a qualidade da carteira de pessoa física piorou de forma relevante no segundo trimestre de 2026, com pressão em cartões de crédito e produtos ligados ao consignado.
Isso pode criar uma situação bastante desconfortável.
O banco melhora de um lado e precisa gastar mais do outro para absorver perdas de crédito.
É como acelerar com um pé no acelerador e outro no freio.
A recuperação do agro pode reduzir provisões e melhorar os resultados no futuro. Porém, se a inadimplência da pessoa física continuar pressionando o banco, essa recuperação pode aparecer de maneira muito mais lenta no lucro.
A própria XP revisou suas estimativas aumentando em 2% as provisões esperadas para 2026, justamente por causa da deterioração mais forte da qualidade dos ativos em pessoa física e de uma recuperação mais lenta do agro.
Isso não combina muito bem com a narrativa de que “o pior já passou”.
E OS DIVIDENDOS? AQUI ESTÁ OUTRA PEGADINHA
Existe outro argumento extremamente popular entre os investidores de BBAS3: os dividendos.
E não é difícil entender por quê.
Na página de acompanhamento do Banco do Brasil, o papel aparecia com dividend yield de 5,62% e payout de 38%, além de P/L de 5,20 vezes.
Para muita gente, esses números parecem suficientes para encerrar a discussão.
“Está barato e ainda paga dividendos.”
Mas existe um detalhe importante.
Dividendos não são obrigação eterna.
O valor distribuído depende da capacidade de geração de resultados, das regras de capitalização e das decisões da administração dentro das políticas aplicáveis.
E esse é justamente outro ponto levantado pela XP.
A casa avalia que há espaço limitado para aumentar significativamente o payout no curto prazo porque os índices de capital permanecem mais apertados e o patrimônio tangível diminuiu.
Para quem comprou BBAS3 imaginando uma verdadeira “máquina de dividendos”, isso deveria servir como um alerta.
Não significa que o Banco do Brasil deixou de pagar proventos.
Significa que a tese de dividendos muito maiores no curto prazo não é tão simples quanto parece.
A AÇÃO PODE ESTAR BARATA E AINDA ASSIM NÃO SER UMA BARGANHA
Aqui chegamos à parte que pode irritar alguns investidores.
Sim, BBAS3 pode estar negociando a múltiplos baixos.
Sim, a ação pode ter potencial de recuperação.
Sim, o agronegócio pode melhorar.
Sim, o banco pode voltar a apresentar resultados mais fortes.
Mas nada disso significa que a ação seja automaticamente uma oportunidade imperdível.
A XP, em sua atualização de setembro, passou a utilizar preço-alvo de R$ 21 para o final de 2027 e manteve recomendação Neutra. A própria casa afirma que, mesmo em um cenário estressado, o papel negocia acima de sua média histórica de P/L estimada para 2027, indicando espaço limitado para uma reprecificação positiva no curto prazo.
Enquanto isso, BBAS3 aparecia em R$ 22,80 na página do Banco do Brasil consultada atualmente.
Ou seja:
o argumento de que a ação está “absurdamente barata” não é tão óbvio quanto parece.
E talvez seja justamente isso que o mercado esteja tentando dizer.
O FATOR ELEITORAL PODE ESTAR ESCONDENDO PARTE DA HISTÓRIA
Existe ainda uma variável que não pode ser ignorada em 2026: as eleições.
O movimento recente de BBAS3 foi parcialmente associado ao chamado “trade eleitoral”, justamente porque bancos controlados pelo Estado podem reagir fortemente às expectativas em torno da eleição presidencial e de possíveis mudanças na política econômica.
Isso cria uma situação curiosa.
A ação pode subir não apenas porque os fundamentos melhoraram, mas também porque o mercado está antecipando um cenário político considerado mais favorável pelas instituições financeiras.
O problema é que expectativa política muda muito mais rápido do que balanço.
Uma pesquisa altera o humor.
Uma declaração de candidato pode provocar reação.
Uma mudança nas expectativas fiscais pode mexer com juros, câmbio e Bolsa inteira.
E, em uma empresa estatal, esse componente pode ter um peso ainda maior na percepção dos investidores.
Por isso, comprar BBAS3 simplesmente porque “subiu 20% e ainda está barata” pode ser uma conclusão perigosa.
ENTÃO O BANCO DO BRASIL É UMA BOMBA?
Não.
E seria irresponsável dizer isso.
O Banco do Brasil continua sendo uma das maiores instituições financeiras do país e possui uma posição extremamente relevante no agronegócio brasileiro.
Também não existe evidência de que a instituição esteja à beira de uma crise que coloque sua sobrevivência em risco.
O verdadeiro problema é outro:
o mercado pode estar precificando uma recuperação que ainda precisa ser comprovada.
A tese otimista depende de uma melhora da qualidade do crédito agro, redução do custo de risco, recuperação dos resultados e manutenção de uma estrutura de capital adequada.
Ao mesmo tempo, existe a necessidade de observar a carteira de pessoa física, as provisões e a capacidade do banco de continuar remunerando seus acionistas sem comprometer sua flexibilidade de capital.
Ou seja, o Banco do Brasil não precisa “quebrar” para BBAS3 decepcionar.
Basta a recuperação acontecer mais devagar do que o mercado espera.
A VERDADE QUE O INVESTIDOR PRECISA ENCARAR
Talvez a pergunta mais importante não seja:
“BBAS3 está barata?”
A pergunta correta é:
“BBAS3 está barata o suficiente para compensar os riscos que ainda existem?”
Essa é uma discussão muito diferente.
O papel já apresentou recuperação importante desde as mínimas, enquanto a XP continua cautelosa. O agronegócio pode trazer uma melhora relevante, mas a pessoa física virou uma nova fonte de pressão. Os dividendos continuam atrativos para muitos investidores, mas o payout pode permanecer limitado. E o componente eleitoral adiciona uma dose extra de volatilidade à ação.
Portanto, chamar BBAS3 simplesmente de “ação barata” pode ser confortável.
Mas pode ser também uma forma de ignorar a parte mais importante da história.
Preço baixo não elimina risco.
E, no caso do Banco do Brasil, o próximo grande movimento da ação pode depender menos da cotação que aparece na tela e muito mais de uma pergunta que só os próximos balanços conseguirão responder:
o pior do crédito realmente ficou para trás ou o mercado está comemorando cedo demais?
É isso que pode transformar BBAS3 de uma suposta pechincha em uma das grandes surpresas da Bolsa — para o bem ou para o mal.
Este conteúdo tem caráter jornalístico e informativo e não constitui recomendação de compra ou venda de ações. Renda variável envolve riscos e pode resultar em perdas.


